Empatia Narcisista

Por Evandro A. Afonso Percheiro

14/01/21 11:52

Chegou a vez de nós africanos nos virarmos contra o Mundo Ocidental, não com ferro e fogo colocando-os contra a parede na própria casa, mas como outrora eles foram recebidos, com abraços e cânticos.

Durante décadas o mundo não se mobilizou para as doenças que assolavam e assolam a África. Muitas delas, que durante anos foram tratadas com o mínimo que o povo tinha: cloroquina, paracetamol, quinino (primeiro medicamento a ser usado para tratar malária), além da alegria e a fé nos céus e em seus ancestrais. Mas por ser a África, nunca houve comoção mundial, nunca houve interesse em uma vacina para erradicar essas doenças. No entanto, para o Covid, temos várias vacinas em apenas seis meses, que ainda não foram devidamente testadas e finalizadas “como devem ser”. Mesmo assim, muitos grupos farmacêuticos as colocaram “à disposição” de líderes africanos para testes em seus países.

Eu me pergunto: que lideres temos? Que povo somos? Com que interesse?

Se ao menos não temos a dignidade de nos ver como gente! Continuando a aceitar o que é de fora como se fosse a melhor opção para todos. Somos africanos e somos capazes! (vejamos o caso de Madagascar, que desenvolveu o Covid-organics, chá feito à base de Artemísia, planta utilizada no tratamento da malária, e que foi duramente censurado pela comunidade internacional, por exemplo). Precisamos acreditar em nós para que o mundo nos veja além de macacos e selvagens que vivem em selvas em pleno século XXI.

É hora de reflexão e posicionamento! De valorizar cada país dentro da África. Contudo, essa valorização não deve começar de fora, deve partir de dentro, onde cada país africano deve reconhecer, ajudar e impulsionar o país vizinho, da região e de outras zonas do vasto continente.

Os estrangeiros ao menos conhecem a África? Ou a olham como um país?

Muitas vezes nos chamam de forma pejorativa de “africanos”, por não conhecer o continente, nem os seus países… O povo africano acostumou-se a não se valorizar e, por esse motivo, não há crescimento. E isso só facilita a “reprogramação mental e intelectual”.

Nunca vi um brasileiro dizer que é americano, um português dizer que é europeu ou um chinês dizer que é asiático. Eles dizem: sou brasileiro, sou português, sou chinês! E por que nós, povos de países africanos, não conseguimos dizer que somos angolanos, congoleses, malianos ou camaroneses? Preferimos nos denominar africanos! Talvez sejam reflexos das amarras mentais e dos traumas que ainda assombram a vida de muitos que continuam presos às dores do passado, talvez seja fruto da neocolonização vigente[…].

O mundo mais uma vez mostra que não olha para a África e seu povo. Todos a pedir por uma vacina porque “a vida acabou”. Mas sequer se colocam no lugar dos seus mais de 1,2 bilhão de habitantes. Pessoas que por muitos anos sofreram e ainda sofrem com doenças que não são encontradas vacinas tão rapidamente ou apenas são ignoradas e não tratadas. E isso porque aquelas doenças não fizeram, não fazem e não farão parte das doenças existentes em seus Continentes (Europa, Ásia, América).

A título de exemplo, apenas em 2020, e apesar da luta contra o Covid-19, a República Democrática do Congo conseguiu erradicar um dos seus grandes inimigos: o Ebola. Doença que esteve presente fora da África, onde foi rapidamente controlada, mas a sua permanência no continente africano resultaria em uma estratégia lucrativa.

Precisamos acordar e nos perguntar se estamos no caminho certo e se realmente o povo africano precisa de vacinas que nunca chegaram em seus países (enquanto não descobrirem ou pesquisarem vacinas para as doenças que já existem lá, nós deveríamos tomar essa vacina???). Esse é momento do povo se unir e lutar pelo seu continente como os outros o fazem. É hora de coragem para mudar e enfrentar os desafios que as sociedades nos impõem, a fim de continuar a explorar os povos africanos somente para benefícios dos outros continentes, que igualmente levam a guerra e a miséria para o nosso ambiente, enquanto seus líderes continuam a desenvolver o seu povo, inferiorizando o nosso!

Nós, que nos deixamos influenciar pelo desejo de aceitação e progresso ocidental, nos esquecendo da nossa cultura, dos nossos iguais, das nossas crenças, dificultando o avanço intelectual local. O povo africano até aqui vem sendo resiliente mesmo com a interferência das grandes nações que já calaram líderes, quando esses tentaram a mudança. Mas não devemos subestimar o valor de uma semente semeada. Que possamos regar a semente da união, dos valores, da cultura e da fé que nos tem guiado até aqui! Que possamos estar unidos e confrontar o mundo como o primeiro povo (não é à toa que nos chamam de O BERÇO DA HUMANIDADE), para que a história futura siga o seu caminho para o melhor.

Que possamos realmente ter empatia e não olharmos apenas para o lado quando formos afetados particularmente, porque quando o teu vizinho sofre, você pode não sofrer naquele momento, mas as suas gerações estarão condenadas a sofrer igualmente ou mais.

“Um povo que não conhece sua história, está fadado a repeti-la” (Edmund Burke).
“A vida começa verdadeiramente com a memória”. (Milton Hatoum)

Elaboração textual: Evandro Percheiro

Revisão textual: Kelly Couto

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