O que é keynesianismo, e sua relação com o pacote bilionário para enfrentar crise do coronavírus

A teoria Keynesiana vem sendo citada por políticos, economistas e empresários que discutem os impactos econômicos da pandemia, o que podemos considerar por “econovírus”.

Os governos estão preparando um conjunto de medidas para resolver ou atenuar os impactos do coronavírus na economia. Desse modo, os governos preparam pacotes bilionários de estímulo à economia, como forma de contrabalançar a desaceleração devido à crise provocada pela pandemia do Covid-19.

Lembre-se que, para certos governos eleitos com uma plataforma liberal estão adotando políticas anticíclicas ao invés da pró-cíclica. Exemplos, Eua e Brasil. O governo angolano vem adotando as mesmas políticas pró-cíclicas apesar de ser um governo de centro-esquerda.

“Em momentos de crise somos todos keynesianos”

Afinal, o que é keynesianismo?

O termo keynesianismo se refere a teorias e políticas econômicas associadas ao trabalho do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946). Sua obra ganhou influência durante e após a Segunda Guerra Mundial.

Keynes defendia a intervenção estatal para manter o bom funcionamento de uma economia. Se necessário, o Estado deveria se endividar para que essa intervenção ocorresse.

Quem foi John Maynard Keynes

Nascido em junho de 1883 em Cambridge, na Inglaterra, John Maynard Keynes era filho de um economista, administrador do King’s College, da mesma cidade. Ele passou a estudar na instituição.

Em sua carreira, atuou como servidor público, no escritório dedicado à Índia e no Tesouro. Ele participou das negociações do Tratado de Versalhes, que negociou as condições da paz após a Primeira Guerra Mundial.

Keynes ficou exasperado com as pesadas penas de reparação impostas à Alemanha, que incluíram expropriações e dívidas impagáveis, e se demitiu de seu posto.

Ainda em 1919, publicou “As consequências econômicas da paz”, em que prevê que o tratado exporia os alemães a uma condição de penúria que acabaria por impulsionar uma nova guerra – o que, de fato, ocorreu menos de uma década depois.

As discussões do Tratado de Versalhes também anteciparam temas que seriam importantes em seus estudos: se os Estados deveriam recuar em seu papel na economia (ampliados durante o conflito) e se as moedas deveriam ser atreladas ao padrão ouro – algo que retiraria poder dos Estados nacionais sobre seu controle.

Seu trabalho mais influente é a “Teoria Geral do Emprego, dos Juros e do Dinheiro”, de 1936. Neste trabalho, Keynes apresenta uma justificativa teórica para a adoção de programas de incentivo econômico por governos, como forma de garantir a geração de empregos. Keynes continuou a atuar junto ao King’s College nas décadas seguintes.

Em 1944, teve papel de destaque na Conferência de “Bretton Woods”, focada em criar as regras para o sistema monetário internacional após a Segunda Guerra Mundial. Entre seus resultados, estão a criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Ele morreu em 1946, em consequência de um ataque cardíaco, aos 62 anos.

Aspectos da teoria keynesiana

Segundo o pensamento de Keynes, a demanda por produtos em uma economia é influenciada tanto por decisões privadas quanto governamentais.

Se há temor de uma crise econômica, os trabalhadores tendem a evitar gastos, como forma de se proteger. Investidores ficam reticentes em investir. E o governo tende a cortar gastos, antecipando queda de arrecadação. Se há otimismo, tende a haver mais gastos, investimentos e arrecadação.

Mas a produção, os preços e os salários dos trabalhadores não se adequam imediatamente a essas mudanças. Isso tende a levar a excesso ou falta de trabalho ou mercadorias, de tempos em tempos.

O desinvestimento por meio de demissões, assim como a redução dos gastos de consumidores em uma recessão podem dar ainda mais tração à tendência de desaceleração da economia.

Por isso, Keynes propõe que, em momentos de crise, o Estado tome a frente, e compense falhas de mercado por meio de políticas públicas.

Keynes chama essas medidas intervencionistas de “políticas fiscais anticíclicas”, porque elas intervêm nos ciclos econômicos de redução de salários e demissões como resposta a crises. Uma medida anticíclica importante proposta por Keynes é o endividamento estatal para financiar projetos de infraestrutura que exijam grandes contingentes de trabalhadores.

Por outro lado, em momentos de excesso de demanda de produtos, a economia superaquecida tende a levar à inflação. Nesse caso, uma possível medida keynesiana é aumentar os impostos, como forma de reduzir a atividade econômica.

Em essência, Keynes avaliava que era mais interessante que o Estado interviesse para resolver desequilíbrios no curto prazo -mesmo que ao custo de endividamento- do que esperasse que o próprio mercado se autorregulasse no longo prazo. Um mote famoso seu é de que “no longo prazo, estaremos todos mortos”.

Pensamento respondia ao fortalecimento dos trabalhadores

Publicado em 1996, o artigo acadêmico “O abismo se abre: Ascensão e queda do keynesianismo”, do pesquisador da Universidade de Edimburgo John Holloway, afirma que Keynes estruturou seu pensamento no início do século 20, um período foi marcado pelo fortalecimento da luta sindical ao redor do mundo e pela Revolução Russa de 1917, um grande marco desse fortalecimento.

Ele tinha como foco de suas preocupações a forma como o fortalecimento dos trabalhadores impunha mudanças na maneira como a qual as políticas econômicas vinham sendo implementadas até então. A mobilização sindical colocava em xeque um conceito econômico que vinha sendo aplicado na economia conhecido como “Lei de Say” (a lei sobre os mercados), popularizado no século 19 pelo economista francês Jean-Baptiste Say.

Ele postulava que o produto de uma economia é igual à renda dos trabalhadores, que é igual ao seu gasto. Isso significa que, em uma economia, o fruto total do esforço dos trabalhadores equivaleria à sua renda, que seria completamente gasta para comprar aquilo que foi produzido.

Se algo levasse à queda de produção, bastaria que a renda dos trabalhadores fosse reduzida para que os gastos também fossem reduzidos, em consonância com essa queda de produção. Em caso de crise, bastaria que trabalhadores aceitassem a redução de seus salários para que o mercado se autorregulasse, e o pleno emprego fosse mantido.

Mas o fortalecimento dos movimentos de trabalhadores colocava esse pensamento em xeque. Sindicatos organizados não só disputavam uma parcela maior dos frutos de sua produção, como barravam tentativas de fazer com que eles e suas famílias arcassem com os custos imediatos de flutuações econômicas.

“Como resultado, a Lei de Say perdia sua validade. Já não era possível presumir que o poder dos mercados por si só assegurariam o melhor uso dos recursos”, diz o artigo de André Fabio.

Em 1925, Keynes escreveu: “A velha ideia de que você pode, por exemplo, alterar o valor do dinheiro e depois deixar que os ajustes sejam efetivados pelas forças da oferta e da demanda pertencem a 50 ou 100 anos atrás, quando os sindicatos não tinham poder, e quando se permitia que o colosso econômico tratorasse seu caminho na estrada do progresso, sem obstrução, e até mesmo sob aplausos”.

Isso não quer dizer que Keynes colocava seu pensamento a serviço daquilo que vinha sendo chamado de proletariado. Na análise de Holloway, Keynes buscava antes criar as condições para canalizar a crescente insatisfação política dos trabalhadores, sem que houvesse convulsão social. No mesmo texto de 1925, Keynes escreveu: “eu posso ser influenciado por aquilo que me parece ser a justiça e o bom senso; mas a guerra de classes vai me encontrar do lado da burguesia educada”, segundo André Fabio.

Por fim, a teoria keynesiana sobre a transferência de renda afinal importa para esses governos em momento de crise. Isso implica que a intervenção estatal e o incentivo sobre a demanda são os combustíveis que vão influenciar o funcionamento da economia.

Obs: após leitura do texto, é aconselhável fazer a leitura de outro texto neste blogue com o tema “keynesianismo na prática” – de André Fabio -, no sentido de enriquecer a sua leitura.

Heitor Ambrósio por André C. Fábio

02/04/2020 01h17

 

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